No dia em que a Williams anunciou a decisão da contratação de Bruno Senna, cheguei a fazer um texto (mais um da lista de “escrevi e não postei”) em tom de despedida, falando sobre a carreira do Rubinho. Dizem as más línguas que a vaga do “Sobrinho” custou 30 milhões de doletas. Fato é que o guri levou patrocinadores de peso como: P&G (Gillette e Head & Shoulder), Embratel, OGX de Eike Batista e MRV Engenharia, para a equipe que não andava assim tão bem das pernas. (Poucos entenderão a maldade desse trocadilho!) Por isso, depois de 19 anos, Rubinho está fora do Grid da Fórmula 1.
Mas semana passada, um convite de seu amigo e compadre Tony Kannam pode ter começado um novo capítulo na carreira de Rubinho. Ele participou de três dias de testes na Indy, correndo pela KV Racing, dirigida pela ex-piloto Jimmy Vasser (para a qual Tony corre). O resultado foi surpreendente, no terceiro dia em que sentou no cockpit de um carro totalmente diferente, que não foi feito para ele, em uma categoria na qual ele nunca havia corrido, Rubens Barrichello foi o mais rápido fechando sua melhor volta em 52s23, quase 2 décimos mais rápido que o segundo colocado. Os testes foram feitos no circuito de Sebring, na Florida.
Isso quer dizer que Rubinho vai correr na Indy? É provável. Nada está acertado ainda, mas os resultados demonstram o quão talentoso é o piloto brasileiro, mesmo renegado pelos seus compatriotas, que preferem as piadas jocosas, quase sempre destrutivas de humoristas (que esses sim, estão longe de ter talento) a reconhecer o valor de Rubinho.
Dessa forma, resolvi desmistificar ou confirmar vários fatos dos quais Rubens Barrichello é taxado por esses “haters” que preferem ir na ondas dos humoristas babacas a reconhecer o talento de nosso piloto brazuca. Dividi a parada em alguns tópicos. Vamos lá:
1 – Rubinho é ruim. Bom mesmo era o Senna.
A segunda oração da frase é corretíssima. Bom mesmo era o Senna. Bom não, ele foi o melhor. Foi e sempre será. Infelizmente, nasci em 88, por tanto pouco vi “ao vivo” da carreira de Senna. Minha lembranças limitam-se a vitória em Interlagos 93 e ao acidente fatal na curva Tamburelo. Mesmo assim, assistindo VTs de corridas completas (Domington 1993, ou Mônaco 1984), documentários e ouvindo um pouco de quem sabe de automobilismo é impossível não dizer que Ayrton Senna foi excepcional. Após sua morte, a mídia caiu em cima do jovem Rubinho, na época na Jordan. Ela não tinha obrigação de ser melhor que o melhor. Ele, ou qualquer outro piloto não conseguiria. Ele tinha apenas que trilhar a sua própria carreira, comemorando suas vitórias e aprendendo com suas derrotas. E para mim, foi exatamente isso que ele fez. Cada um é cada um e vice-versa.
2 – Rubinho era o número 2 do Schumacher.
Fato. Rubinho foi, na Ferrari, o piloto número 2. Escudeiro de Michael Schumacher. Responsável por ajudar o alemão a vencer diversos títulos dos quais ele se quer precisava de ajuda. A Ferrari trabalhava para o alemão. Rubens, contratado pela escuderia italiana após uma temporada excelente com a mediana Stewart, chegou cheio de esperanças a Maranelo. Porém, o tratamento que ele recebera foi sempre inferior que a principal estrala do time. Ele tinha menos mecânicos, menos engenheiros e por vários anos, correu com o carro do ano anterior nas primeiras corridas da temporada. O alemão não. Sempre estreou o carro novo na primeira corrida.
Mesmo assim, não podemos esquecer a fantásticas corridas que Barrichello fez na Ferrari. Sua primeira vitória, em Hockenheim 2000, foi coisa de piloto gênio. Largou em 17º e cruzou a linha de chegada como vencedor, dançando com o pneu de seco na escorregadia pista encharcada por uma tempestade, puro braço.
Ou, a minha preferida, Silverstone 2003, quando o padre irlandês invadiu a pista, o mesmo que agarrou Vanderlei Cordeiro de Lima na Olimpíadas. Na confusão, Rubens que era terceiro, caiu para oitavo depois do Safety Car. Na segunda parte da prova, o brasileiro foi abrindo caminho e cruzou a linha de chegada em primeiro.
O contrato de Rubinho não permitia a ele negar as ordens de Jean Todd, Ross Brawn e companhia, fazendo com que ele abrisse passagem para Michael Schumacher. É parecido quando trabalhamos em algum lugar no qual não concordamos com a política, mas precisamos do emprego. O que fazemos? Baixamos a cabeça, afinal manda quem pode e obedece quem tem juízo. Não era só a grana, era uma carreira promissora. Quem sabe um dia a Ferrari olharia para ele, no futuro. Não foi o que aconteceu. Talvez o maior erro de Rubinho foi ter preferido ir para a Ferrari. Diz que McLaren e Williams também tinham feito propostas para o piloto quando ele assinou com a escuderia italiana. Mesmo assim, foi um lugar que rendeu alegrias e muita experiência.
3 – Rubinho correu esse tempo todo por dinheiro.
É óbvio que Rubens Barrichello deve ter recebido excelentes salários em seu tempo de Ferrari. Porém, já faz tempo que ele não recebe uma grana alta não, pelo contrário é muito mais provável que ele tenha investido muito dinheiro em sua carreira nesses últimos anos. Sua permanência na categoria só se deu por esse motivo: Rubinho não foi capaz de injetar dinheiro na Williams. Mais do que isso, quando a Honda faliu, em 2009, e Ross Brawn comprou a equipe, montou o projeto e colocou na pista o carro que venceria o campeonato naquele ano, Rubens Barrichello e Jason Button só ficaram no projeto porque eles não receberiam salário. Os dois pilotos toparam um contrato de risco no qual eles receberiam por pontos conquistados. Os pilotos bancavam inclusive algumas despesas nas viagens para as corridas. Logo, Barrichello não é um mercenário, não ganhava dinheiro a rodo. Ele é um cara que gosta do que faz e não se imagina em casa, aposentado.
4 – Se Rubinho fosse bom, ele seria campeão.
Mesmo sem um título, Rubinho entrou para a história da Fórmula 1. Desde 1993, Rubinho disputou 326 corridas. Em um dos esportes mais competitivos do mundo, em uma categoria que envolve grana, poder, dinheiro e muito talento na qual só há espaço para 24 pilotos, Barrichello esteve por 19 anos. Foram 11 vitórias, 14 poles (algumas com as fracas Jordan e Stawart) e 17 voltas mais rápidas. Admiração e respeito de companheiros e vários amantes de automobilismo do mundo inteiro, pena que no Brasil é diferente.
Por essas e outras, afirmo que as piadas destrutivas criadas por humoristas desqualificados não expressam nenhum pouco a carreira de Rubens Barrichello. Tomara que tudo dê certo e ele, de fato, corra na Indy na temporada de 2012 conquistando mais vitórias para o Brasil e recebendo o respeito e admiração do público norte-americano. E que um dia o Brasil saiba reconhecer o excelente piloto que Rubens Barrichello foi e ainda é.



3 comentários
Rafael Andretti says:
Feb 7, 2012
Grande texto, Mendonça. O problema do Rubinho? Ter nascido em uma país onde não valorizamos o segundoo, o terceiro. Só queremos saber do primeiro, e vez ou outra esquecemos dos que foram primeiros e nos arreganhamos todo para o estrangeiro. E assim é não só no esporte.
Rubinho foi e é um excelente piloto. Cometeu erros em sua carreira? Sim, mas que não os comente. Pode parecer chavão, porém é a realidade. E a realidade deve ser encarada. E ela, ao longo de 19 anos, mostra que Rubens Barrichelo foi constante, rápido e superior a muitos. Só a maldita sindrome brasileira de que o que vem de fora é melhor não vê.
Pra terminar lembro da participação (recente) de Rubinho no aclamado Top Gear da BBC inglesa, http://www.youtube.com/watch?v=7XoAHbwLL0s .
Força Rubinho!
Mais respeito com o Rubinho - Slonik says:
Feb 7, 2012
[...] Mais respeito com o Rubinho [...]
Kila Wilks says:
May 18, 2012
Texto maravilhoso. Parabéns. Bem estruturado, argomentativo e direto.
Muito válidas, congruentemente, as críticas feitas aos humoristas que recorrem ao bullinismo para fazer sucesso e acabam influenciando irresponsavelmente a opião pública facilmente tangida pela ignorancia.
Não sou fā de Fórmula 1, estava procurando exatamente informacões sobre Rubinho porque assisti o episódio de Top Gear ao qual Jeremy Clarkson falava das conquistas de Rubinho nella Formula1 e no qual Rubens Barrichello fez um tempo incrivel vencendo até mesmo The Stig, mais que conhecedor do circuito privado, e se torna o piloto mais veloz de Top Gear.
Muito contente que seja feita justica ao talento de Barrichello.