Muito além da sala de aula

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Para quem não sabe, moro em um bairro considerado periferia de Curitiba. Fica a 11 quilômetros do Centro e 17 de onde trabalho. Como não tenho carro, vou de ônibus. O que resulta em mais de uma hora dentro dos coletivos lotados. Nesse caso, ler é um ótimo passatempo.

Readquiri o hábito de ler no ônibus. Mas estava em uma época complicada, fui acometido de uma síndrome que apelidei de Síndrome do meio da história. Comecei vários livros: Os Segredos dos Roteiros da Disney de Jason Surrel, Peixe Grande de Daniel Wallace, um livro de contos de Fitzgerald, O Retrato de Dorian Gray e até mesmo o segundo livro da saga de Harry Potter. Todos, parei da metade para trás. Não dava seqüência, não me prendia nas histórias.

Eis que O Clube do Filme, de David Glimour, mudou essa situação. Concentrando no livro, quase perdi o ponto para descer, várias e várias vezes. Torcia para que o ônibus demorasse, ficasse preso em semáforos fechados e congestionamentos só para não perder o pique, ler mais e mais páginas. O livro, autobiográfico, conta a história da Gilmour, um crítico de cinema cinquentão, e seu filho Jesse, um adolescente de 15 anos.

Jesse vai mal nos estudos e acha que ir para a aula é um verdadeiro martírio. Seu pai vê essa situação e não se conforma com o “sofrimento” do filho. Então, faz a ele uma proposta indecorosa: não precisar mais ir a escola, desde que assista 3 filmes por semana com o ele. O menino não hesita, aceita na hora. Ou seja, Glimour propôs para seu filho receber educação exclusivamente pelos filmes. Simples assim.

E se Gilmour e Jesse tiverem razão? Será mesmo que nosso modelo de ensino é tão bom assim? Será que a escola ensina como pensar ou impõem coisas em que você tem que pensar?

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Até hoje, me pergunto porque aprendi a calcular um determinante, porque tive que saber que os metais alcalinos terrosos são lítio (Li), sódio (Na), potássio (K), rubídio (Rb), césio (Cs) e frâncio (Fr) e ficam no período 1A da tabela periódica de elementos e que, para lembrar-se deles, basta seguir o macete “Li Na Kapricho, Rubinho Casou-se na França”.

Não, não tive nenhuma dificuldade com tudo isso, pelo contrário, sempre fiz o tipo de aluno exemplar, que ouve tudo que o professor fala, entende e destrói na hora da prova. Mas pra que provas? Eu tenho que provar que aprendi? Por quê?

Será que é necessário um professor, que trata centenas de alunos de maneira roboticamente igual, chamando-os por número para ticar sua presença e avaliando se eles, de fato, compreenderam as coisas que têm que saber?

E se assistimos a Lista de Shindler, O Pianista e O Resgate de Soldado Ryan, não daríamos muito mais vida a aula de história que conta como o mundo entrou em guerra pela segunda vez? National Geographics e Discovery Channel não dão de 10 em algumas aulas de biologia? Jogar Banco Imobiliário não e uma ótima forma de estimular o raciocínio matemático?

Muito do que aprendemos não está nas apostilas, na decoreba, nos macetes que os tocadores de violão, digo, professores de cursinho falam. Está na vivência, convivência e na bagagem cultural adquirida. Nos livros lidos, filmes vistos, músicas, revistas, cenas, noticiários e até blogs lidos. A figura do professor, às vezes, não é fundamental.

Claro que ela também não dispensável. Não estou dizendo para que todos nós deixemos os estudos de lado e fiquemos por ai, fazendo o que dá na telha. O que afirmo é que, há muito tempo, o ensino é uma coisa imposta. O professor vomita um conteúdo que, às vezes, nem ele entende, de uma maneira nada didática, sem envolver o aluno, explicar para que aquilo serve, de onde veio e para o que será útil no futuro. E isso, é desde o ensino básico até os cursos superiores.

Talvez, o aprendizado tenha que ser como no Clube do Filme, sem nenhum tipo de regra, norma ou rigidez. Oriunda de uma fonte de entretenimento, mas ainda sim com muito conteúdo. Que não haja provas e nem chamada. Que a presença não se seja obrigatória, mas sim voluntária. E, principalmente, que o diploma que se ganhe de o título de “ser pensante” antes de qualquer outro cargo.

Para quem ficou curioso sobre o livro, clique aqui e confira onde encontra O Clube do Filme.

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11 Comentários

  1. Alessa Mesquita

    Olá, estou lendo seu blog pela primeira vez e gostei do seu texto sobre a educação dentro e fora da sala de aula. Concordo com você que muitas destas normas de sala de aula estão ultrapassadas e que os professores, muitas vezes desestimulados com o baixo salário e a falta de respeito dos alunos, não se dedicam o suficiente ao ensino em sala de aula. Mas por outro lado, infelizmente acho que sua ideia de aprendizado fora da escola ainda é utópica, principalmente em se tratando de Brasil. Temos que evoluir muito ainda dentro das salas de aula pra depois podermos pensar em alternativas de ensino. Ainda assim, concordo com a leitura de livros como esse sugerido no seu texto como um complemento ao ensino. Os filmes, os jogos, revistas e alguns canais de tv podem muito contribuir com a educação de uma pessoa. Mas continuo achando que a escola tem papel fundamental, principalmente qdo falamos em viver em sociedade, conviver com pessoas de fora da família, etc.

  2. Bruno Mendonça

    Obrigado pela visita, Alessa. E por deixar sua opinião. Volte sempre :)
    Sobre o comentário. De fato, a escola tem um papel fundamental na formação, inclusive social das pessoas. Mas ainda acho que isso pode ser complementado ou, em alguns casos, até supridos por outros meios.
    Abraços.

  3. Assino embaixo, novamente.
    A escola pode ser um ambiente produtivo de ensino, o método é que está errado. Além de muito do que aprendemos ser absolutamente inútil (e só continuarmos aprendendo para movimentar o comércio de giz, livro didático e todos esses objetos de tortura), somos ensinados a “decorar”, coisa que me irrita profundamente.
    Texto ótimo, bem escrito e com boa base.
    Beijo*

  4. Ricardo Ferro

    Bruno.
    Sim, você me deixou curioso pelo livro. Vou atrás dele.
    Quanto às questões levantadas sobre ensino, acredito que a falha está não somente nos métodos, mas no modelo. Antes da Revolução Industrial, não se pensava em formar profissionais para atender aos novos postos de empregos nascidos nas indústrias. A culpa do modelo é, portanto, do modo de vida produtivo desde então. É por conta disso que as profissões como contador, economista, engenheiro, arquiteto e outras são tidas como “produtivas” e as outras ligadas ao lúdico (artistas, músicos, professores) ficam em segundo plano; elas não são ideais, no entender do novo formato.
    Por que não se leciona composição, pintura, filosofia? Porque o mundo urge e precisa de “produtivos” para os cargos do sistema atual.
    Portanto, tome física, álgebra, química e variantes maçantes na cabeça da garotada. E ainda se exige deles interesse por essa massa de “conhecimento”.

  5. Bruno Mendonça

    Oi Ricardo,

    Não que eu seja contra ensinar essa áreas do conhecimento. Mas acho ruim, primeiro limitar o conhecimento somente a essa áreas e, segundo, não tornar isso atrativo para os alunos. É dificil, mas por incrivel que pareça, tem como. Obrigado pelo comentário, volte sempre.

  6. Ricardo Ferro

    Bruno
    só agora relendo o que escrevi e notando seu comentário, percebi que posso ter deixado a impressão de que sou contra essas áreas do conhecimento. Mas não é assim. E explico, sucintamente.
    Falo das áreas – exatas, geralmente – aplicadas às chamadas profissões “produtivas”. As aspas são minhas, a classificação não. É claro que enxergo a importância de todas as áreas do conhecimento. Mas falo do engessamento das fórmulas e da padronização do ensino.
    Eu, como aluno, já me frustrei muito com o repasse de algumas matérias. Vi-me privado de criatividade e espontaneidade. MAs ao mesmo tempo, por profissionais mais dedicados, vi determinados assuntos – tidos como chatos, pesados – soarem como música, dada a didática apicada.
    Abraço.

  7. Cara, conheci seu blog hoje e fiquei louco pra ler este livro!!! Adoro cinema e acredito que bons filmes agregam muito mais à nossa vida do que anos sentado na sala de aula.

    Abraço!!!

  8. Três filmes por semana ainda é pouquinho… Nada como o François Truffaut, que virou autodidata e via três filmes por dia, e lia três livros por semana (ou pelo menos tentava) :)

    Vou procurar esse livro hoje mesmo!

  9. Marcelo Nen

    Bruno
    Queria agradecer a dica de livro que você deu.
    Comprei o livro na noite do sábado e já tinha terminado na segunda (passei algumas aulas desse dia lendo o livro)
    Gostei dos questionamentos de educação, mas ainda acredito que ainda é necessária uma escola, apesar de esta precisar de uma reformulação para passar o assunto de alguma forma mais dinâmica, interativa, sei lá.
    O ensino esta cada vez menos pessoal, como você disse. Como os colégios/universidades querem sempre botar mais gente nas salas e elas ficam enormes. Quando um professor passar a dar atenção a cada aluno, tentar ensinar cada aluno, boa parte dos problemas vão mudar.
    Mas até os próprios alunos não querem o ensino; querem o diploma no final do curso. E o problema continua.

  10. Bruno Mendonça

    Marcelo, não precisa agradecer. Que bom que gostou do livro.
    Infelizmente, o ensino virou um ótimo negócio e só. Qualidadede ninguém se importa.

  11. Olha, vi o livro no blog, me entusiasmei e comprei! É um livro maravilhoso que até me fez abrir uma conta na locadora local, e já comecei a ver alguns dos filmes que eles mencionam no livro (que por sinal não são poucos…)vou tostar minha grana alugando filmes, mas nem ligo! :)
    Mas falando do assunto do post, eu tenho uma opinião antiga de que depois da 6ª série (7º ano) boa parte do conteúdo é bem dispensável, ou redundante!
    Bem, espero não ter enchido o saco, mas mais uma vez obrigado pela dica e parabéns pelo blog ;)

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