Muito se discute sobre a política de cotas em universidades, concursos públicos e, se a nova lei discutida na câmara for para frente, até mesmo nas empresas. É uma espécie de forma de inclusão obrigada, que já acontece com os deficientes físicos. Quem defendem esses ideais explicam de uma forma simples: seria uma espécie de amenizar as dívidas que a sociedade têm com a raça negra, tão explorada e mal tratada durante anos.
Seguindo o mesmo critério, redigirei uma nova proposta de lei e encaminharei as câmaras de vereadores de Curitiba e deputados do Paraná: cota para canhotos. Isso mesmo, dar vez a uma parcela da sociedade tão discriminada e esquecida por todos, os que têm a mão esquerda hábil.
Desde a Antiguidade utilizar o lado esquerdo era considerado profano. Usar a mão esquerda na Idade Média era considerado feitiçaria, e dava ao canhoto uma passagem direto para a fogueira. Na China e na Índia o correto é comer com a mão direita. Até para tribos indígenas americanas, o lado esquerdo é ligado aos poderes malignos.
Em português, canhoto também tem o sentido de inábil, desajeitado. Destro, ao contrário, significa aquele que é dotado de destreza. E o preconceito continua de todos os sentidos. Lembra do poema do Drummont? “Vai Carlos, ser Gauche na Vida”. Gauche do francês: canhoto, eta anjo torto. E pior é em italiano, que canhoto é sinistro, o mesmo que algo mórbido e fúnebre. Em todas as línguas do mundo inteiro prevalece a máxima que a esquerda é ruim, a direita é boa.
Acordar com o pé esquerdo é sinônimo de má sorte. E religiosamente, Jesus está sentado ao lado direito de Deus, e não ao esquerdo. Um zero a esquerda, não vela nada. E mais vários e vários adjetivos pejorativos diminuem os canhotos.
Até no Alcorão, no dia do Juízo Final, aqueles que segurarem os livros na mão esquerda estarão fadados ao mármore do inferno.
Já tentou abrir uma lata de ervilhas com a mão esquerda? Cortar um papel em linha reta sem usar a direita? Ou fazer uma prova naquelas salas que só tem cadeiras com apoio de braço e escrever com a canhota? É a sina dos canhotos: sofrerem, se entortarem, serem obrigados a contorcerem-se para realizar simples atividades, nesse mundo preconceituoso dos destros.
É provado pela ciência que ser canhoto é genético. Assim como a cor dos seus olhos, seu tipo de sangue, nasce contigo, depois do cruzamento de cromossomos (dominantes e recessivos) de seus pais. Por isso, se você tem um filho canhoto, a culpa foi inteiramente sua, então pare de tentar fazê-lo escrever com “mão certa”. Ou o pior, dar a ele o item que me renderam traumas irreversíveis: as temidas colheres tortas. Não faça isso com seus filhos.
Dia 13 de agosto é comemorado o Dia Internacional do Canhoto. Por isso, esse será o dia da grande marcha dos que usam a mão esquerda. Será o dia de nosso grito de liberdade e de igualdade de condições, contra uma sociedade direita e preconceituosa. Vamos corrigir um erro da sociedade: o preconceito contra 10% da população, que escreve ou chuta com a esquerda.
Então, exigiremos cotas para canhotos. Contra o mundo espelhado e contra a massa destra que monopoliza os vestibulares, os concursos e o mercado de trabalho. Assim, o lado esquerdo da força (que não tem nada a ver com política) também poderá mostrar seu valor e a sociedade pagará por tanto preconceito, perseguição e segregação. É justo, moral e ético.
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14, May, 2009 at 12:58 AM
Eu apóio. Uso a mão direita, mas detesto preconceito e discriminação, seja contra fatores genéticos ou escolhas.
Maaaaaaas, sou contra cotas! =)
Apóio só a sua.
14, May, 2009 at 1:14 AM
hahahahahaha
Super apoiado, Bruno!
Adorei o post! Seu bruxinho!
Brincadeiras a parte, vc tem toda a razão… E dizem que os canhotos são mais inteligentes…
Vai saber! =D
Beijos
14, May, 2009 at 1:28 AM
apoio também.
se a divida da sociedade com negros rendeu cotas nas universidades, os destros também devem dar uma chance aos canhotos!
além de quê, os canhotos…bom, os canhoooootos…
14, May, 2009 at 12:32 PM
Confesso que comecei lei o texto com um pouco de reluta, pois acho o tema “cotas” muito complicado para ser discutido, devido ao olhar burguês de todos que o discutem (todos, dos a favor aos contra), mas com o caminhar do texto fui me acalmando, pois o texto não se trata diretamente das cotas, mas sim de um grito pelos canhotos.
Realmente não faço idéia de como é ser esquerdo e nem tem como tentar saber.
Quando aquela parte que falar de jesus e o lado direito não só nesse caso, pois essa é uma padronização universal, no cerimonial público a pessoa mais importante sempre senta a direita.
A unica ressalva é quanto as cotas para negros, elas não são exatamente uma tentativa de compensar o passado, acho que vale a pena procurar o porquê da defesa, defesa eu falo aquelas pessoas e entidades que foram chamadas para a aprovação da lei, pois existem MUITAS pessoas que se dizem a favor, mas nã estão prontas para defender (assim como eu), mas o mais importante, na minha opinião, é (assim como para esse exemplo) gerar a polêmica a fim de gerar mais discussões e uma maior compreensão popular sobre o assunto.
Esse texto esta, como sempre, muito bem escrito, se você ainda não percebeu, sou um grande fã.
14, May, 2009 at 12:39 PM
Pô e eu que sempre achei legal usar a mão esquerda! Sou destro e a um tempo venho treiando pra escrever com a esquerda também.
Sendo ambidestro, eu teria direito às cotas criadas pela lei que você propõe? Hahahah
E a palavra ambidestro heim? Se um canhoto aprende a usar a mão direita, ele vira um ambicanhoto? Sacanagem chamar o cara de ambidestro!
E Clara Jones, os canhotos, bom, o que tem demais? Fiquei curioso =X
Abraço
14, May, 2009 at 12:48 PM
Bruno, parabéns pelo texto. Há muito tempo que eu pensava nesse contexto. Sou canhota, e sofri muito pra aprender e fazer muita coisa… com isso veio a superação: Sou desenhista, pintora e tenho MUITA habilidade com trabalhos manuais. Sou ambidestra, pois tive que aprender a me virar muitas vezes, com a mão direita, por falta de tolerância de muita gente (até mesmo de educadores), e por ignorância de muitas pessoas (minha família). Sem falar do preconceito excessivo, das frases “Você é contra Deus”, e assim por diante.
Mais uma vez, parabéns pelo seu post, você escreve muito bem, e expôs muito bem esse assunto polêmico
17, May, 2009 at 2:48 PM
“e a sociedade pagará por tanto preconceito, perseguição e segregação. É justo, moral e ético.”
Isso soou meio rancoroso, talvez até vingativo. Realmente a crítica é construtiva, eu sei pq meu pai é canhoto e conta que sofreu tudo isso que vc fala – e que talvez não tenha sofrido por já nascer numa sociedade dinâmica e livre.
No mais o texto está muito bem construído e traz u assunto relevante, já que se trata tanto sobre o tema da acessibilidade a todos. Parabéns pelo texto piazinho! Abraços
18, May, 2009 at 3:10 AM
Minha avó era ambidestra… na realidade ela era canhota, porém quando começou a se alfabetizar, proibiram na escola de utilizar a esquerda justamente por ser algo profano. Portanto ela foi obrigada a aprender a escrever com a direita. As demais tarefas do cotidiano, continuava fazendo com a mão esquerda. Ao final de sua adolescência iniciou estudos no piano e foi professora de música durante toda sua vida. Nesse caso a ambidestria auxiliou muito em sua técnica. Sou destro, mas para muitas coisas tento utilizar a mão esquerda como uma forma de exercício, pois também sou músico e acredito no desenvolvimento de outras percepções através disso…
Ler o texto me fez lembrar o episódio dos Simpsons em que o Flanders abre o Canhetódromo: uma loja de artigos para canhotos. =D
E poxa, até na escolha da data comemorativa os caras sacanearam: 13 de agosto! O treze como um número de azar, de Judas, etc. E agosto, que é o mês do cachorro louco. Oo
29, May, 2009 at 11:32 PM
Sofri alguns perrengues em tempo pré escolar devido a escrever, comer e adjacências com a canhota.
Ainda lembro de minha professora, Eva, do prezinho dizendo: “Marcelo se um dia vc for presidente, imagine vc assinando um documento importante com a esquerda, não pode, muito feio!”.
E chorava ainda na 1º série por ser mais lerdo que os outros pra escrever e terminar as lições pois era obrigado a usar a direita.
Em casa não era diferente na hora das refeições quando minha mãe me obrigava a comer com a “mão certa”, e minha fome demorava pra ser saciada.
Nuss…esse comment acabou virando uma sessão de terapia…
Cotas para canhotos NOW!
Parabéns pelo texto…continue escrevendo!
10, Jun, 2009 at 6:59 PM
Até hoje não sei se sou mulata, morena ou parda, mas sempre fui contrária às cotas e não aceitei ser beneficada por elas (inclusive, o pau que tomei na Uerj não teria se concretizado caso eu fosse cotista, passaria em 5°). Ah, e no vestibular tive que fazer prova em carteira de destro, sendo canhota.
Um ano depois de entrar pra universidade, o meu digníssimo reitor implantou o sistema de cotas lá. Fiquei revoltada. Entretanto, preciso admitir uma coisa: depois que eu vi diversas carinhas esbanjando melanina no campus, comecei a perceber o quanto o Ensino Superior público é elitista. E acredite se quiser, percebi também um pouco do meu preconceito com os meus iguais, de verdade. Em tese continuo sendo contra as cotas para os negros, mas me tornei favorável às cotas sociais.
Penso que o acesso à universidade não deve ser facilitado, não mesmo, as escolas que precisam de melhoria. Mas, como diz o provérbio inglês, “enquanto nasce a grama o cavalo morre de fome”. Gostaria muito de ainda ser enfática contra as cotas, mas não consigo mais ver o cavalo do vizinho ciscando enquanto o meu come feno e pedrinhas de açúcar.
Mas, se houver cotas pra canhoto eu apóio! Não aguento mais ter que usar duas carteiras pra poder escrever! Vamos fazer também uma reforma vernacular? Em vez de dizer: “Menino, senta direito!”, a gente fala “Menino, senta esquerdo!”. Ou então, falar com o advogado: “Quais são os meus esquerdos?”
11, Jun, 2009 at 6:22 PM
e como eu fico!?
sou destro e canhoto (destro na mão, canhoto na perna)
kkkkk…
teria meio direito as cotas?
kkkkkk…
sem dúvida muito interessante o post
12, Jun, 2009 at 4:02 AM
Apoiado!!!
Sou canhoto e tenho orgulho disso!!!
10, Sep, 2009 at 4:30 AM
nooossa, minha avó tem q mesma historia do Tersis. Mas simplesmente todo mundo na minha família nasceu canhoto, meus dois tios e a minha mãe. Mas como ela teve tendinite, aprendeu a usar mais a direita, e hoje só consegue escrever com ela.
Ja eu, nao sei se isso se relaciona, sou hiperativa, e nunca treinei pra escrever com qualquer mão, mas escrevo com as duas, com a mesma caligrafia. Na escola fazia parte com uma mão e parte com a outra, só pra dividir e não me “cansar” hahaha. Nao sei se a ambidestria causa isso, mas eu sou completamente atrapalhada, não sei diferenciar esquerda de direita e quando troco de mão, nunca noto o.O Ja na faculdade, tenho que trocar de carteira toda vez que alguma mão cansa, e é terrivel ! Adorei o tema, pq alem de tudo, prestei varios vestibulares e no dia resolvi escrever com a mão esquerda .. e eles simplesmente nao tinham carteiras suficientes ! Tambem acho queseria bom criarem um abridor de latas para canhotos, pq ajudaria muito a minha vida hehe =)