
Se desde o primeiro teaser, a microsérie Capitu, prometia ser uma excelente experiência audiovisual, ela cumpriu tudo que prometia. No ano do centenário de falecimento de Machado de Assis, um dos maiores, se não o maior, escritor brazuca, responsável pela fundação da Academia Brasileira de Letras e pela publicação de fantásticos poemas, contos e romances, não poderia ser feita melhor homenagem.
Porém, ouvi de muita gente que a linguagem da série não favorecia o entendimento da história. Que era algo rebuscado, “elitista”. Discordo. Morro discordando. A serie foi praticamente uma leitura de Dom Casmurro. Aliás, leitura essa que foi realizada inclusive pelo site Mil Casmurro, colocando mil pessoas para ler um trecho do grande clássico machadiano. Como assim linguagem complicada, rebuscada?
Atribuo a esse sentimento de descompreensão, com o perdão do neologismo, a falta de cultura literária dos telespectadores. Podem me chamar de intelctualóide e dizer que estou generalizando. Segundo o IBGE, o povo brasileiro é um dos que menos lêem em todo o mundo, em média 1,8 livro por ano. Ficamos atrás da França com 7 livros; da Inglaterra com 5,2 e até mesmo da Colômbia com 2,4 livros anuais. Acrescem a essas estatísticas a falta de interesse pela literatura e o alto nível de analfabetos funcionais em nosso país, aqueles que sabem ler e escrever, porém não sabem interpretar o que lêem.

Assim, viramos uma nação “novela das 6”, que precisa de histórias simples, prontas e fáceis de entender. De preferência com um vocabulário chulo, pobre e popularesco. Empobrecemos a nossa cultura que, se consultarmos na prateleira de qualquer biblioteca, é rica e têm grandes títulos de excelentes escritores, merecedores de muito mais destaque.
Esse quadro só existe por que “educação” nunca foi nosso forte. Não só o quesito escolar, onde não ensinam a valorizar nossa literatura. Mas também no incentivo pelos livros e por boas histórias dentro de casa. Semana passada, o Blog Livros e Afins mostrou a fantástica campanha canadense para incentivar a leitura. Com o tema “quando a criança não lê, sua imaginação adoece”, um anúncio e cartazes brincavam com personagens de contos de fadas na UTI.
Seria muito fácil plantar na cabeça das crianças o interesse pelos livros. Começar por livros lúdicos, contos de fadas, histórias em quadrinhos. Apresentar Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Pedro Bandeira e tantos outros. Para depois, a própria criança se interessar por vôos mais altos, autores consagrados e os grandes clássicos da literatura.

Fácil falar, difícil fazer? Meu irmão de 8 anos, que não demonstra o mesmo interesse que eu tinha por livros quando tinha a idade dele, se encantou quando voltei de uma viagem e trouxe um presente diferente: “O livro perigoso para garotos”. Ele adorou, brincou, se interessou por dicas de outros livros, de filmes, desenhos e brincadeiras abordadas pelos irmãos Iggulden.
Enfim, infelizmente, vivemos em um país que desconhece ou não aprendeu a apreciar a sua própria cultura. “Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir.” (Machado de Assis).
Outras matérias e links sobre o desinteresse pela leitura no Brasil, aqui e aqui.



8 Comentários
Oi Bruno, concordo plenamente contigo, dai chegam na faculdade – que são os alunos com quem eu lido – completamente anestesiados e sem conseguirem escrever ou processar textos que exijam mais interpretação
Fala Bruno,
Concordo, confesso que li Dom Casmurro à muito tempo atrás, (devia ter uns 13 anos) não havia entendido picirica nenhuma. E isso me desmotivou a ler o livro depois. Quando vi a série achei super interessante (lógico que aprendi uma coisa ou outra nesse meio tempo) mas achei bem acessível sim, ao menos ao público jovem a qual foi dirigida.
Sobre o incentivo nacional a leitura, bem, acho que já virou questão cultural.
Oi!
Te indiquei pra participar deste meme: http://entaovejabem.wordpress.com/2008/12/16/meme-aleatoriedades/
(se quiser, depois apaga este comentário)
e depois da trovinha, publiquei o soneto.
vê lá.
:>)
Eu li os mais clássicos do Machado por volta dos 16 anos, um atrás do outro. Mas a leitura quase dinâmica, tão afoita, somada à minha memória de Dori, fizeram com que eu logo esquecesse das estórias… ainda estou pra reler alguns deles.
Eu cresci numa casa onde todos lêem, e aprendi desde cedo o quanto é gostoso passar horas viajando em letras deliciosamente combinadas. Comecei nos livros grandes com Monteiro Lobato!
Comentário longo… bem, o que quis dizer mesmo foi que basta apresentar à criança as leituras certas para criar adultos melhor alfabetizados!
Gostei do seu post.
Não tenho o que falar sobre o falto da leitura, eu faço do bolo e não da fatia.
Alguém discordou de você até agora? Esse é um assunto muito polêmico (não o fato da pouco cultura, mas especificadamente sobre essa releitura da Capitu) eu também li alguns comentários parecido sobre o assunto, mas lembro tb que eles passavam por outras áreas alem da linguagem “rebuscada” adotada…
Ouvi/li comentários que crucificavam a modernização do texto, alegando que estava com uma linguagem (tanto estética quando até sonora) muito jovem. Vi tb até falarem que a capitu não era tão sedutora assim.. bla bla bla.
Mas.. eu estou enchendo o saco aqui meio para perguntar qual a sua impressão da mini-série??
Mesmo achando do caral**, tenho que assumir que (até por uma questão de disponibilidade de tempo) estou esperando sair em DVD para terminar de assistir.
A Globo tenta, algumas vezes acerta, mas ela mesma é uma parte responsável, ainda que no papel de cúmplice de uma série de outros elementos, pela “burrificação” do povo em nosso país, matéria-prima do telespectador, do olhinhos que lhe dão audiência.
Não há espaço fértil em qualquer horário da grade televisiva e em qualquer emissora aberta; A TV Cultura talvez seja o único oásis, mas há tanto tempo que não a vejo, que corro o risco de revelar minha desinformação…
Claro que qualquer trabalho com um mínimo de preocupação técnica, histórica e experimental vai soar elitista. Quem consome livros, principalmente cânones, passa por elitista, esnobe, pois desde a alfabetização está-se exposto a todo o tipo de rótulo quando se demonstra interesse em aprender e descobrir idéias legais, e que estão além das fronteiras daquela quantidade de informações que aprendemos sem maior esforço. O ato de pensar, de articular o resultado do pensamento com um pouco mais de palavras que o meu interlocutor possua em seu vocabulário causa incômodo, é postura excludente; como as crianças vão degustar a leitura em todas as suas possibilidades se os pais não leem? É a tradição, é a herança que se tem no fim das contas…
Não faço idéia de quanta audiência a microsérie Capitu amealhou, mas me surpreenderei se tiver sido alta! É até irônico a Globo esperar qualquer coisa de diferente e positivo depois de décadas de novelas cada vez mais vazias e repetitivas, de alimentar o círculo vicioso da ignorância e do mau-gosto estético, musical, idiomático, de oferecer pratos cada vez mais vistosa e enganadoramente belos e insalubres, um verdadeiro fast-food (a)cultural.
Oxalá fossem produzidas mais obras que para o bem ou para o mal promovessem discussões mais ricas do que quem será o ganhador do BBB…
ler é vida, é crescimento!