magico

Convenhamos senhores, um avião não some. Ainda mais um Airbus, A330 com 59 metros de comprimento, 17,4 metros de altura e 60,3 metros de envergadura. Mas aviões caem. Por falha humana, técnica, operacional, qualquer problema mais grave. Não é comum, mas aviões caem. No Brasil, a queda do vôo 477 da Air France não foi noticiado, apenas o seu desaparecimento. Aviões não desaparecem.

Minha birra com jornalistas vem de longa data. Não só por também ser um comunicólogo a poucos dias da graduação, mas também por sempre ouvir discursos inflamados do compromisso com a verdade da imprensa e, principalmente, de sua aversão por publicitários, porcos que se vendem por qualquer coisa. Mas quando vemos uma tragédia concreta, daquelas que arregalam os olhos da opinião pública, com um assassinato bárbaro mal resolvido, uma troca de reféns mal negociada ou a queda de um avião, com mais de 200 vítimas fatais, descobrimos o verdadeiro viés da imprensa: aproveitar-se da desgraça alheia e fazer tudo, mas tudo mesmo que esteja ligado a isso, noticia.

 

noticias_bizarras

Enquanto o @breakingnews, já afirmava que o avião deveria ter caído e já mostrava detalhes de quantas pessoas estavam dentro do vôo,  o G1 ainda noticiava que o avião havia desaparecido. Aos poucos, o clichê desastroso de qualquer desgraça começou a ser explorado. Os personagens chaves de sempre.

Especialistas de todas as áreas apareciam: um raio teria desintegrado o avião, terrorismo não foi descartado e a verdadeira causa ainda seria apurada.  Ai sempre aparece alguém que deveria ter embarcado no vôo, mas de última hora desistiu e torna-se um iluminado, alguém recebeu um sinal, e a imprensa entrevista, tira fotos, conta a história inteira.  Outro personagem típico que vira notícia  é um vidente, pai de santo, curandeiro, entidade demoníaca ou paranormal que previu tudo, mandou carta para Deus e o mundo, mas só divulgou a depois. Mas isso da Ibope, acesso, causa interesse de tudo mundo, então é noticiado.

Depois, as primeiras vítimas foram descobertas. Era a hora de expor tudo o que faziam, o motivo da viagem e começar a contar as histórias como se fossem roteiros de filmes de suspense, sem pensar na dor e sofrimento de cada família que perdeu um ente querido no “sumiço” do avião. Será que divulgar uma lista de nomes com a cidade em que morava e a profissão já não era suficiente?

O acidente ainda vai render muitos fatos que virarão notícias, por mais banais que sejam. Afinal, são matérias que rendem destaque, curiosidade e repercussão nos leitores. Então, quanto piores a notícias, melhor para os jornalistas, repórteres e editores, que estamparão o sensacionalismo na capa de jornais, revistas e sites, sem se preocupar com nada. Nem com a gramática, afinal, hoje, durante boa parte do dia, a capa do G1 tinha uma frase extremamente ambígua: “Avião desaparece com mais de 50 brasileiros”. Seria esse avião ilusionista? Ele fez 50 brasileiros aleatórios sumirem, do nada? Talvez “Desaparece avião com mais de 50 brasileiros” não seria melhor. Talvez.

Outra dúvida que fica é se a imprensa é popularesca para atrair o público, ou se o público é atraído por noticias popularesca. Será que são consumidores da informação que tem o desejo por ler notícias ruins, desgraças, tragédias e sangue escorrendo no chão? Será que é por isso que a primeira reação dos hackers e disseminadoras de spans é enviar “fotos do acidente aéreo 477 da Air France” na tentativa de pegar trouxas curiosos?

O que sei é que a faculdade de Jornalismo devia explicar para os acadêmicos que eles são tão podres como nós, publicitários, a diferença é que a gente não finge fazer nosso papel em prol da sociedade. Assumam que vocês gostam é de desgraça que já vai ser bem melhor.

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